Pesquisadores estudam potencial anticancerígeno de planta encontrada na serra de Baturité

22.01.2010

Uma substância extraída de uma planta encontrada no caminho do Pico Alto, na região serrana próxima ao município de Guaramiranga, está sendo avaliada por pesquisadores cearenses pelo seu potencial uso no tratamento do câncer. As vitafisalinas, compostos presentes na planta Acnistus arborescens – conhecida popularmente como “esporão de galo falso” ou “marianeira” -, foram testadas in vitro em duas linhagens de células leucêmicas e conseguiram reduzir o número de células tumorais existentes.

Os resultados do estudo, que começou em 2005, foram divulgados em artigos produzidos pelo grupo, que reúne cientistas dos departamentos de Fisiologia e Farmacologia, de Química Orgânica e Inorgânica e de Clínica Odontológica, todos da Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi constatado que além de inibir o aumento do número das células doentes, os compostos ainda induziram algumas à apoptose (processo de morte celular programada).

No mesmo estudo também foi avaliada a citotoxicidade das vitafisalinas em células mononucleares de sangue periférico (PBMC). O teste com células sanguíneas é um dos procedimentos usados por pesquisadores para avaliar se a substância em teste pode ser tóxica não só para células cancerígenas mas também para as sadias. No entanto, após 72 horas de tratamento, nenhum dos compostos testados reduziu o número de células sanguíneas.

Danilo Rocha, que pesquisa os efeitos anticancerígenos das vitafisalinas em sua tese de doutorado, no Departamento de Farmacologia, explica que os principais motivos para a escolha da Acnistus arborescens como objeto de seu estudo é o fato da planta já ser usada pela medicina popular para o tratamento da doença. Além disso, as vitafisalinas fazem parte de um grupo já bastante conhecido por pesquisadores, o dos vitaesteróides, que tem apresentado diversos efeitos farmacológicos.

Além disso, de acordo com um dos artigos publicados pelo grupo, as plantas, hoje, têm um importante papel no atendimento básico de aproximadamente 80% da população mundial. Na área de tratamento do câncer, substâncias derivadas de plantas têm se revelado como potentes agentes quimioterápicos. “E mesmo quando o produto isolado não se comporta como uma droga efetiva, ele pode prover um meio adequado para a conversão em um agente clinicamente útil”, diz o texto redigido pelos pesquisadores.

Apesar de o estudo ser recente e ter sido feito apenas na fase pré-clínica (com amostras de células, sem a participação de cobaias vivos), Danilo afirma que o potencial das vitafisalinas tem despertado o interesse de laboratórios particulares. Ele ressalta, no entanto, que como a pesquisa está no início, alguns resultados obtidos ainda não podem ser revelados. Mas o pesquisador assegura que eles têm sido promissores. “Estamos empolgados com essas substâncias”, diz.

Custo alto das pesquisas encarece o medicamento

Apesar da matéria-prima para a extração da vitafisalina ser facilmente encontrada no Ceará, o pesquisador responsável pelo estudo não tem expectativa de produção de um remédio de baixo preço para o tratamento do câncer. Ele explica que isso se deve aos altos custos das próximas fases, quando drogas contendo a substância serão testadas em cobaias”, primeiro em animais, depois em seres humanos.

“Os estudos clínicos são muito caros. Essa é a grande dificuldade dos pesquisadores locais. Para chegar até o medicamento, é quase impossível fazer tudo por conta própria. É preciso buscar o apoio dos grandes laboratórios. E eles vão repassar esses custos para o produto final”, explica. Para ter uma idéia da complexidade do estudo, principalmente por se tratar de uma possível droga anticancerígena, ele ressalta que, no teste com pessoas, por exemplo, é preciso avaliar diferentes grupos. E isso demanda a participação de laboratórios de vários países.

O estudo das vitafisalinas tem como principal local de pesquisa o Laboratório de Oncologia Experimental, do departamento de Fisiologia e Farmacologia. A Funcap apoia o centro através de projetos de financiamento às atividades dos pesquisadores responsáveis.

Por Sílvio Mauro

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